Resenha: Lua Nova

24 11 2009

Tem coisas que a gente não precisa passar. No domingo, por exemplo, eu poderia não ter ido ver Lua Nova. Hoje eu seria uma pessoa bem mais feliz. Mas não, o senhor-curioso-que-gosta-de-porcarias, não resistiu e foi ver essa merda.

Pra começar, a sessão foi um desastre: tive que esperar quase 2 horas até o início do filme (perdi a sessão pra qual tinha me programado), depois os caras passaram quase 20 minutos de trailers (todos já postados aqui no blog), e, pra melhorar, com quase meia hora de filme, uma senhora faminta cismou de engasgar com a pipoca: acendem as luzes, param o filme, o povo grita, aplaude e a nossa mocinha está salva.

Mas eu mal sabia que o pior ainda estava por vir. Fãs da série, alguém pode, por favor, me explicar que porra de filme é esse? Juro que foram duas horas – e dez – bem insuportáveis. O maior problema é que não acontece nada no filme. Bom, acontece isso…

A Bella está feliz. O Edward vai embora. A Bella fica triste. O Jacob aparece. A Bella fica feliz. O Jacob fica bravo. A Bella fica triste. O Jacob é um lobisomem. A Bella gosta de vampiros. A Bella quer se matar. O Edward aparece. A Bella fica feliz. O Edward quer se matar. O Jacob fica triste. A Bella ama o Jacob. O Edward quer casar. E o Bruno quer cortar os pulsos.

Pô, Crepúsculo era ruim, mas era uma porcaria divertida. Já Lua Nova não. É ruim e é um tédio. Ok, tecnicamente o filme é superior ao primeiro, deixando, pelo bem de todos, aquele ar de amador para trás. Os efeitos estão mais legais (não perfeitos, nem bonitos) e as sequências de ação melhor orquestradas. Aliás, o grande momento do filme é quando os lobisomens perseguem a vilanesca Victoria ao som arrebatador de Thom Yorke.

Por falar em som, duas coisas: a trilha é beeem legal e a mixagem de som é beeem ruim. Lua Nova faz muito barulho por nada, literalmente. Mas isso é detalhe, afinal, temos alguns abdomens e uma garotinha problemática pra analisar.

O elenco está um pouco melhor, mas continua ruim. Kristen Stewart, de quem eu tinha até gostado no primeiro filme, entrega a interpretação mais irritante da história. Agora, não sei se culpo a atriz ou a personagem, já que Bella é uma… ah, desencana. Não quero confusão. Robert Pattinson continua precisando seriamente de aulas de atuação, enquanto Taylor Lautner é o que se sai melhor do trio. Ainda assim, quem “rouba” a cena é Michael Welch e Anna Kendrick, Mike e Jessica respectivamente. A cena em que Bella vai com Jacob e Mike ao cinema é divertidinha e até arrancou sorrisos meus.

Mas aí entram aqueles Volturi e pantz… o filme mostra a que veio. Com figurino e direção de arte cafonas demais, o clímax de Lua Nova parece final de temporada de uma mini-série da TV Globinho. Ah, mas as moças suspiram quando veem Bella e Edward, vestindo branco e correndo saltitantes pela floresta, em uma visão futura de Alice. Não minha gente, isso não é romântico e nem emocionante. É ridículo e vergonhoso. E o que dizer da Dakota Fanning, que entra toda putinha e tem, tipo, duas falas?

Pra finalizar, a entrada de Chris Weitz fez bem para a série, mas não a salva de ser um desastre. O diretor perde muito tempo com coisas inúteis, que não agregam à narrativa. Pelo contrário, as pausas dramáticas dos diálogos (que são péssimos), as repetições desnecessárias e o excesso de vai-não-vai, cansam e inflam um filme que deveria ter, estourando, 90 minutos.

Eu tentei, mas meu esforço pra gostar da série acaba por aqui. Valeu Edward, valeu Bella. O prazer foi todo de vocês. Beijos.

Nota: 3,0

p.s: mesmo Lua Nova sendo tecnicamente melhor que Crepúsculo, o filme sequer é divertido por ser ruim. Por isso merece uma nota mais baixa. Porcaria ruim, morra!





Resenha: (500) Dias Com Ela

16 11 2009

Se você tem, vejamos, mais que 20 anos, já deve ter se apaixonado ao menos uma vez nessa vida, certo? Uma paixão que te fez pensar o dia inteiro na pessoa, sempre com frio na barriga e arrepio na espinha. E, se já se apaixonou, é bem provável que também já sofreu por causa disso: dor no coração, saudade, arrependimento, vontade de não existir.

A paixão é algo irresistível, mas também assustador. Eu sei disso. Você sabe disso. E o Tom (Joseph Gordon-Levitt) sabe muito bem disso. Mesmo assim, graças à precoce exposição a músicas pop, ele cresceu acreditando que jamais seria feliz a menos que encontrasse a pessoa certa.

É aí que entra Summer Finn (Zooey Deschanel), a garota com a qual ele passará 500 dias inesquecíveis (uns felizes, outros nem tanto).

Esta premissa é o ponto de partida deste filme delicioso e apaixonante. Graças ao talento do diretor Marc Webb, (500) Dias Com Ela (‘500 Days of Summer’, 2009) consegue ser um dos melhores do ano e uma das grandes comédias românticas do cinema.

Esqueça essas coisas sem alma feitas por Jennifer Aniston, Ashton Kutcher e cia. (500) Dias Com Ela pega todos os clichês do gênero e os recria com curiosa originalidade, abusando de ferramentas metalinguísticas e referências à nossa cultura e àquilo que consumimos sem culpa (séries de tevê, filmes, músicas). É divertidíssima, por exemplo, a cena em que Tom se dá conta de que Summer é mesmo diferente, quando, no elevador, ela revela que ama a banda The Smiths.

E, se em Juno, o roteiro era extraordinário por colocar palavras ácidas e inteligentes na boca de uma adolescente, espere até ouvir os diálogos espertinhos de (500) Dias Com Ela. No filme de Marc Webb, os personagens falam coisas que eles deveriam estar mesmo falando, mas de forma muito mais divertida e descolada (odeio essa palavra).

Do início ao fim, Webb busca romper com o comum usando recursos outrora recorrentes (tela dividida, narração, flashback), mas que aqui, de tão bem realizados, fazem todo o sentido para compreendermos as personagens em tela. A sequência em que Tom vai à festa na casa de Summer e vemos, de um lado sua Expectativa e do outro a Realidade, enquanto a música de Regina Spektor diz “he never ever saw it coming at all”, é de uma fodelância absurda (tradução: genial). Essa passagem, inclusive, me deixou emocionadíssimo, tamanha sua simplicidade.

E o diretor brinca o tempo todo com a metalinguagem, às vezes de forma mais clara, como a sequência do musical ou quando Tom se vê refletido na tela do cinema, mas principalmente disfarçada de conteúdo: (500) Dias Com Ela é uma história de amor em que seu personagem principal, seu herói, culpa todas as histórias de amor criadas, seja no cinema, seja na música, por fazer as pessoas se frustrarem ao desejar algo que, aparentemente, não existe na vida real: a famigerada alma gêmea. É curiosíssimo como o filme tenta subverter (de mentirinha, claro) tal convenção, mesmo que por fim acabe se rendendo a ela.

Apesar disso tudo, (500) Dias Com Ela é mesmo um filme de personagens. Assim como o competente Apenas o Fim, é na dinâmica entre os protagonistas que a produção brilha. Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel finalmente encontraram os papéis de suas vidas.

Carismático, Gordon-Levitt pode até exagerar um pouquinho nas expressões (quando ele está depressivo, principalmente), mas seu olhar de apaixonado é tão sincero e genuíno, que basta. Já Zooey Deschanel… puta merda, juro que em muitos momentos desisti de ler a legenda só pra ficar olhando em seus olhos. Sabendo que a atriz não é lá muito talentosa (vide Fim dos Tempos), Marc Webb soube extrair o melhor da moça e a deixou ainda mais encantadora. Repare, por exemplo, como a personagem veste basicamente azul; isso a torna mais serena e fascinante.

Os fatores que me incomodam no filme são o excesso de vai e vens e os amigos do Tom, que servem como um desnecessário alívio cômico. Especialmente a garotinha a quem ele pede conselhos; qual o sentido da personagem ser uma criança? Para mostrar que ele é mesmo um cara inseguro e que seus amigos não entendem do amor e, por isso, não prestam para dar conselhos? A intenção é até que boa, mas para mim não rolou.

Mas isso de nada importa. Pois com uma trilha sensacional, roteiro afiado, atores em sintonia e um diretor com total domínio sobre sua obra, (500) Dias Com Ela é um filmaço.

Veja, reveja, ame, odeie, sinta.

Nota: 9,0





Pré-Resenha: Onde Vivem os Monstros

27 10 2009

Como você bem sabe, Onde Vivem os Monstros (‘Where The Wild Things Are’, 2009) era o filme pelo qual eu estava mais ansioso para assistir este ano. Infelizmente, ele teve sua estreia adiada no Brasil para janeiro (antes dia 1º; agora dia 15). Felizmente, tive a chance de assisti-lo em uma cabine exclusiva na Warner ontem, 26 de outubro.

Peraí, mas por que no título do post está escrito “pré-resenha”?!

Simples: porque é impossível tirar claras (e concretas) conclusões do filme tendo o assistido apenas uma vez. Seria até injusto da minha parte citar sequências, apontar recursos de linguagem ou julgar com detalhes aspectos do roteiro. O filme é tão rico, que fica difícil absorver tudo com uma única assistida.

Por isso, o que escrevo a seguir são primeiras impressões, palavras rápidas sobre o novo trabalho de Spike Jonze; ou seja, uma quase-resenha (e espero que ela sirva para acalmar os nervos de quem está tão ansioso pelo filme como eu estava).

Onde Vivem os Monstros_Wallpaper

Engana-se quem pensa, pelos lindos trailers e pôsteres (ou até mesmo pelo livro adaptado, obra de Maurice Sendak), que Onde Vivem os Monstros é uma produção fofinha com bichinhos legais e crianças se divertindo.

Um aviso, meus caros: Onde Vivem os Monstros não é um filme fácil. É belíssimo, divertido e emocionante, sim. Mas sua complexidade vai muito além destes adjetivos.

A genialidade de Spike Jonze é tanta, que ele conseguiu criar, a partir de um livro infantil, uma produção densa, repleta de camadas que exigem uma cuidadosa reflexão. Arrisco a dizer – e espero não estar indo longe demais – que Onde Vivem os Monstros é uma espécie de Blade Runner dessa geração: um filme difícil, que não agradará a todos, mas que no futuro será descoberto, ganhará status de cult e se tornará objeto de estudo e análise sobre relacionamentos, estrutura familiar e outros tantos temas que dizem respeito à infância e seus conflitos.

Caray. Nunca imaginei que escreveria este tipo de coisa sobre esse filme. Mas é o que é.

Em breves palavras, a produção é impecável: o visual dos monstros causa estranhamento, rompe com o que estamos familiarizados e, por isso, os torna fascinantes. O garoto Max é um paradoxo; a incrível atuação de Max Records (sim, o nome do menino-ator também é Max) nos desperta inúmeros e conflitantes sentimentos. A trilha sonora de Karen O and the Kids é fantástica e cai como uma luva em cada cena do filme. As locações, a fotografia, a direção de arte… tudo é muito foda. Tanto a sequência inicial, quanto a final são de uma genialidade absurda, e me deixam comovido só de lembrar.

O ritmo do filme, no entanto, é bastante lento e arrastado. Não vá esperando grandes reviravoltas ou quebras inesperadas na narrativa. Estamos lidando com arte aqui, é preciso estar no clima para aproveitar ao máximo da experiência criada pelo cineasta.

Ainda assim, Onde Vivem os Monstros é a obra-prima definitiva de Spike Jonze. Um filme subversivo, impactante, belíssimo e que ficará com você por um bom tempo (acredite, cada vez que paro e penso sobre ele, encontro novos significados).

Mas ainda tenho muito a falar. Em janeiro, próximo à estreia do filme, prometo que farei uma resenha completaça, explicando em detalhes porque este é um dos melhores filmes que eu já vi, e as razões que podem torná-lo em um dos filmes mais cultuados do cinema moderno.

Ah, e a nota não poderia ser mais previsível: 10.

Let the wild rumpus start!





Resenha: Besouro

24 10 2009

Besouro_Poster10 milhões de reais. Esse foi o orçamento aproximado de Besouro, filme nacional que ganhou título de superprodução. Pronto, é agora que a gente se abraça e chora por saber que essa puta grana foi desperdiçada em um filme ruim.

Dirigido por João Daniel Tikhomiroff, que tem no currículo bons filmes publicitários, Besouro leva para o cinema a história de Manoel Henrique Pereira, filho de ex-escravos que virou mito ao enfrentar coronéis e uns caras malvados, usando golpes de capoeira de maneira extraordinária.

Pô, a história do cara é legal pra caramba. Por isso, é de se lamentar que ela passe despercebida diante dos nossos olhos, graças a um roteiro fraquíssimo, que usa o lettering como muleta para contextualizar uma história que nem os diálogos, nem o desenvolvimento dos personagens deram conta de passar. Aliás, os diálogos são vergonhosos de tão ruins e algumas sequências excessivamente arrastadas; saída fácil, mas ineficaz, de um diretor que tinha um roteiro pobre em mãos.

Mas beleza, todo mundo que for ao cinema para ver Besouro, quer mesmo é se divertir com as cenas de ação, os combates incríveis e ver o capoeirista voar, literalmente. E, sem dúvidas, este é mesmo o maior (único?) trunfo da produção: as lutas convencem (principalmente a que acontece na feira livre) e os planos de voo de Manoel/Besouro são bem realizados e bonitos de se ver em tela grande. A edição de som também é uma qualidade a se citar, já que o filme é bem barulhento.

Mas João Daniel infelizmente não é Ang Lee (que dirigiu a referência óbvia, O Tigre e o Dragão). O diretor brazuca está longe (muito longe, inclusive) de ter a sensibilidade do cineasta taiwanês ao comandar seus atores: mais uma vez a agulha da vergonha alheia me deu umas espetadas, graças à inerte atuação do elenco (salvo Irandhir Santos, que faz o preconceituoso coronel Noca de Antônia). Não é justo, no entanto, condenar os atores, que fazem visível esforço em cena. É fato que João Daniel deveria ter se preocupado menos com as coreografias e mais com a direção de seu elenco.

É triste escrever negativamente sobre Besouro. Eu estava no time dos que tinham esperanças com a produção. Infelizmente não rolou. Agora é torcer para que outros tenham a admirável ousadia de João Daniel Tikhomiroff; mas que façam isso escolhendo um roteiro melhor trabalhado e dando a devida atenção a seus atores.

Nota: 4,0

Besouro estreia nesta sexta-feira, dia 30.





Resenha: Bastardos Inglórios

16 10 2009

Inglorious Basterds

Não são necessários nem 10 minutos de Bastardos Inglórios para saber que estamos diante de mais uma obra-prima de um cineasta que só faz obras-primas (pode falar o que quiser, mas À Prova de Morte e Jackie Brown têm momentos geniais).

A sequência inicial de Bastardos é uma das coisas mais poderosas já vistas no cinema. Através de um diálogo hipnotizante, onde o silêncio é carregado de tensão, Tarantino desenvolve com maestria (e elegância, ao passear com sua câmera ao redor dos personagens) dois fatores determinantes para trama: 1- a personalidade sarcástica (e até dócil) de seu vilão; e 2- o clima e ambientação necessários para entendermos um pouco sua visão da França ocupada pelos nazistas.

Aqui, ao invés de divagar a respeito de Like a Virgin, massagem nos pés ou sobre a personalidade fascinante do Super-Homem, ele faz uma analogia entre ratos e esquilos para explicar o asco que os nazistas sentem pelos judeus. Foda. Não à toa que um roteiro com este tipo de monólogo tenha levado quase uma década para ficar pronto. Tarantino é um artesão, um escultor de palavras. São inúmeros os diálogos memoráveis presentes no filme, que, em linhas muito gerais, acompanha um grupo de oito soldados judeus americanos à caça de nazistas – o grupo se autodenomina de “bastardos”.

Bastardos Inglórios_Sequencia Inicial

Se a premissa já é badass o suficiente, espere até ver esses caras em ação: um pouco de sangue aqui, alguns cortes de cabelo ali, um dedo na ferida e muitos tiros. Sim, o exagero proposital característico do diretor está lá. Cinéfilo como nenhum outro, Tarantino gosta de abusar dos efeitos causados pelas imagens. Já que estamos na ficção, tudo vale. E a plateia reage com desconforto. Missão cumprida.

Por falar em exagero, considero Bastardos Inglórios o Kill Bill da segunda guerra. Com trama também fragmentada em capítulos, letreiros descolados (como o que apresenta o soldado Hugo Stiglitz) e movimentos de câmera quase idênticos aos do filme da noiva (citarei uma sequência específica em seguida), Tarantino faz aqui seu mais interessante exercício de metalinguagem.

E não falo apenas de Orgulho da Nação, o filme dentro do filme e homenagem ao cinema da propaganda nazista. Famoso por costurar suas tramas com elementos da cultura pop, em Bastardos Inglórios, além de fazer isso (repare que a fonte dos créditos remete aos westerns spaghetti de Sergio Leone e saiba que o nome de ‘King Kong’ grudado na testa de um militar nazista está ali não por acaso) ele também faz referência a seus filmes anteriores, principalmente Kill Bill.

Não me é estranho, por exemplo, que o nome do inteligentíssimo coronel Hans Landa soe familiar ao de Hattori Hanzo, ferreiro criador da poderosa espada de Beatrix Kiddo, de Kill Bill (Hans – Hanzo). Ou ainda a obrigatória ponta de Samuel L. Jackson como narrador da sequência sobre o poder de combustão dos rolos de filme. Para não citar o incrível tiroteio do bar, que herdou o melhor estilo Cães de Aluguel. É Tarantino citando Tarantino; e isso é brilhante.

Inglorious Basterds_Hans Landa

Hans Landa, voltemos a ele. Que belo trabalho do ator austríaco Christoph Waltz (que foi premiado este ano em Cannes). Sem dúvidas, um dos vilões mais fascinantes que o cinema já produziu. Um coronel nazista que desconstrói com delicadeza o arquétipo do militar durão, violento. Falando quatro línguas fluentemente (a cena em que testa seu italiano é hilária), Hans tortura e causa medo, sim. Mas faz isso com a elegância de um lord inglês: pobre Shosanna Dreyfus (a bela fracesa Mélanie Laurent) que é obrigada a degustar um refinado doce oferecido pelo assassino de sua família, em uma sequência fabulosa (os planos-detalhe na sobremesa funcionam como uma bem-vinda fuga, como se, no mergulho ao prato, o diretor nos aliviasse do pavor e da tensão que a personagem sofre em cena).

Os belos enquadramentos são uma premissa nos filmes de Tarantino. Mais uma vez, como fã de cinema, ele compõe seus quadros com admirável precisão. Um exemplo disso acontece quando Shosanna se prepara para executar seu plano de vingança: ao usar vestido vermelho, unhas vermelhas e batom vermelho, ela nos antecipa um possível banho de sangue (sem abrir mão do véu negro, signo máximo do luto). Observando a rua pela janela, seu reflexo se mistura com o avermelhado das bandeiras nazistas estendidas do lado de fora; que bela mise-en-scène! Ao deixar o quarto, Tarantino mais uma vez imita Kill Bill ao acompanhar a personagem pelo corredor até chegar às escadas, tudo com ponto de vista de cima para baixo, num plongé que lembra uma das cenas da sequência no templo de O-Ren Ishii (Lucy Liu).

Era o início de um final épico. Uma conclusão violenta, perturbadora (senti uma aflição tremenda ao ver o cinema arder em chamas, imaginando que aquilo poderia acontecer na sala em que estava), mas não menos genial. Um marco do cinema e da carreira de Quentin Tarantino, o cineasta mais mother fuckin´ cool ever!

Nota: 10

Diane Kruger_Quentin Tarantino





Resenha: Tá Chovendo Hambúrguer (em IMAX 3D)

9 10 2009

Tá Chovendo Hambúrguer_PosterTodo mundo sabe que não se deve ir ao supermercado de estômago vazio, certo? Pois já aviso logo de cara: coma antes de ver Tá Chovendo Hambúrguer (‘Cloudy With a Chance of Meatballs’, 2009), pois é praticamente impossível não sair do cinema babando de vontade de colocar quilos de comida pra dentro.

Apesar de não ser nenhuma Pixar da vida, a Sony Pictures Animation demonstra curioso interesse em desenvolver tramas elaboradas e bem acabadas: são deles A Casa Monstro (ótimo), O Bicho Vai Pegar (péssimo) e Tá Dando Onda (excelente; e sim, os caras do marketing brasileiro adoram um “Tá” no título).

Este último trabalho mantém a boa qualidade do estúdio, sem trazer grandes inovações à categoria. A começar pela história, que mostra as desventuras de um garoto-cientista que muda radicalmente o estilo de vida da sua cidade ao inventar uma máquina que transforma água em comida. Uma premissa muito criativa, mas que se rende a clichês bobos, encenados por personagens pouco interessantes (o macaco é insuportável) e que culmina em um encerramento eletrizante e cheio de nonsense.

Ainda, algumas piadas funcionam bastante (a sequência da gelatina é incrível) e o espetáculo visual proporcionado pelas chuvas de comida – que, especialmente em 3D –, valem a experiência de ver o filme no cinema. É impressionante também o trabalho de movimentação de câmera realizado pelos diretores: muitos rodopios, mergulhos e outras acrobacias possíveis apenas no mundo da animação (vide a ótima sequência em que Flint corre em direção ao tornado de espaguete).

Os bons momentos de ação, no entanto, não salvam algumas passagens de serem bem chatinhas, como os discursos do vilanesco prefeito ou a problemática relação entre pai e filho. Rolou uma preguiça. Dito isso, confesso que esperava mais de Tá Chovendo Hambúrguer; uma animação divertida e com visual caprichado, mas que tropeça (sem cair) ao contar uma boa história apoiada em personagens que não cativam.

E nunca um filme me deixou com tanta fome.

Nota: 7,0

Tá Chovendo HambúrguerSe estiver em São Paulo ou Curitiba, não deixe de conferir a versão IMAX do filme.





Resenha: Coco Antes de Chanel

23 09 2009

coco_before_chanel

O que faria você ir ao cinema para ver um filme francês sobre uma renomada estilista de moda?

Responda, assinalando na tela uma das alternativas abaixo:

a) Para ver a boa atriz Audrey Tautou, do adorável O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Ela, que em Coco Antes de Chanel (‘Coco Avant Chanel’, 2009) faz esta observadora, contida e apaixonada mulher, que anos mais tarde foi responsável pela criação de uma das marcas mais importantes e influentes desse negócio chamado capitalismo;

b) Por causa da sensível diretora Anne Fontaine, que constrói, através de belíssimos planos, um filme esteticamente impecável, mas que falha ao destacar a – emocionante – história de amor de sua personagem e as razões pelas quais ela nunca se casou, e deixar em segundo plano a trajetória transgressora de Gabrielle ‘Coco’ Chanel, uma mulher de personalidade forte, que virou sinônimo de elegância ao preferir o conforto à extravagância;

c) Gosto de romances bunitinhos. Tudo bem que o roteiro é fraco e o filme não captura a essência de sua personagem (depois eu faço como o cara que escreveu esse texto e pesquiso mais sobre ela no Google). Tô afim é de conferir esse filme para ver sua linda direção de arte, que recria coisas e lugares com exemplar competência. E principalmente para babar com seu – já esperado – belo figurino; assim como me emocionar com sua intensa trilha sonora;

d) Todas as alternativas anteriores. Eu gosto das roupas da Chanel e vou ver esse filme de qualquer jeito;

e) Nenhuma das alternativas anteriores. Vou esperar sair o DVD e assistir em casa.

Nota: 6,0

Coco Antes de Chanel estreia nos EUA nesta sexta-feira, e chega aos cinemas brasileiros em 30 de outubro.





Resenha: O Desinformante!

14 09 2009

O Desinformante!_PosterO novo filme de Steven Soderbergh é bom, mas não tem a faísca, o brilho de produções similares como Prenda-me Se For Capaz e Queime Depois de Ler. O que não é um problema, mas o coloca na lista de filmes interessantes, porém esquecíveis.

Isso se deve ao fato de Soderbergh ser, naturalmente, um diretor mais contido do que Spielberg e os irmãos Coen. O cineasta, que consegue transitar com facilidade entre superproduções e filmes autorais de baixo orçamento, gosta de denúncias sociais (Traffic, Erin Brockovich), de política (Che), metalinguagem (Full Frontal) e de piadas sutis e inteligentes (11, 12 e 13 Homens).

E O Desinformante! (‘The Informant!’, 2009) é uma mistura careta de tudo isso. Na trama, Matt Damon é Mark Whitacre, o primeiro executivo de alto escalão a se tornar um informante nos Estados Unidos. Achando que, ao denunciar a própria empresa por criação de cartel, ele ganhará uma merecida promoção, Mark acaba se envolvendo mais do que devia com FBI.

Embora não tão fascinante quanto a história de Frank Abagnale Jr. (retratada no espetacular Prenda-me Se For Capaz), a vida de Mark Whitacre merecia mesmo um filme. E que bom que o ator escolhido para vivê-lo nas telas foi Matt Damon. O galã, que deve abocanhar indicações a prêmios por este filme, teve que engordar (com direito à pança de chopp), deixar crescer o bigode e usar peruca. Ou seja, prepare-se para ver um Jason Bourne aposentado e decadente.

E, certamente, Damon é a alma e o coração do filme (da mesma forma que Julia Roberts foi em Erin Brockovich, obra que colocou Soderbergh em evidência). Versátil e talentoso, Damon constrói um Mark Whitacre com medidas igualmente paradoxais de ingenuidade, insegurança, cinismo e autoconfiança. A personalidade cheia de nuances do personagem, enfim, é muito bem traduzida pelas sutilezas da atuação de Damon, como em uma cena em que consegue fingir estar com medo, quando de fato está com medo.

O Desinformante! arrisca a se tornar um puta filme sempre quando ouvimos em off um pensamento aleatório de Mark Whitacre: pérolas do roteiro, o personagem divaga sobre gravatas, sobre o quanto a aparência das mãos é importante para se chegar ao sucesso, ou ainda que todos nós temos uma frase bomba-relógio. Sem dúvida, os mais inteligentes e divertidos momentos do filme.

Famoso por também operar a câmera e fazer a direção de fotografia de seus filmes, Soderbergh desta vez optou pela ajuda de terceiros, que não fizeram feio: a produção é amarelada, quente; a maioria das cenas é composta por abajures, luzes com aspecto esfumaçado e de fontes externas, como janelas e portas abertas (deixando, em muitos momentos, os atores contra a luz). Muito interessante.

Gostei também da trilha sonora, que dá o tom do filme graças a uma pegada funky, marcada por metais e percussão. Muito similar à trilha de Os Incríveis, da Pixar, e aos filmes de espião da década de 70 (aura que o filme busca captar, mesmo acontecendo nos anos 90).

As pessoas vão gostar de O Desinformante!: uma produção correta, sem grandes inovações, mas com uma boa história conduzida por um excelente Matt Damon. Poderia ser um filmaço se investisse mais no humor negro, presente de forma sutil, porém eficiente, nos pensamentos de seu protagonista.

Nota: 7,8

O Desinformante! chega aos cinemas americanos nesta sexta-feira e estreia no Brasil em 16 de outubro.

[CORREÇÃO]

Descobri que cometi uma grave falha na resenha acima. Na realidade, Soderbergh é sim o responsável pela fotografia do filme. No entanto, ele faz isso assinando o trabalho com o pseudônimo de Peter Andrews, fato que desconhecia.

Preferi deixar o texto como estava e fazer a correção (pedindo desculpas) com esta atualização.

;-)





Resenha: Amantes

8 09 2009

Amantes_PosterEm um ano cheio de superproduções, efeitos especiais incríveis, muito 3D e comédias boca-suja, é delicioso ser surpreendido por um drama como Amantes (Two Lovers, 2008). Um filme simples, despretensioso e excepcional.

Dirigido de maneira muito elegante por James Gray (do bom Os Donos da Noite), Amantes mostra as indecisões de Leonard (Joaquin Phoenix, excepcional), um solteiro chegando na meia-idade, que foi deixado pela noiva e, por isso, ainda vive com os pais. Após uma tentativa frustrada de suicídio, duas mulheres, diferentes entre si, surgem em sua vida: Sandra (Vinessa Shaw) é quase perfeita, o par ideal para ele manter seu estilinho de vida até o fim de seus dias; enquanto Michelle (Gwyneth Paltrow), sua nova vizinha, é extrovertida e misteriosa, argumento perfeito para uma fuga – sua janela para o mundo.

Assistimos o desenrolar dessa história através dos olhos de uma câmera passiva, quase ausente (exceto nas cenas em que vemos Leonard ansioso em seu quarto, quando ela perde sua estabilidade e torna-se inquieta, como o personagem) e ao som de uma trilha sonora delicada, que entende com precisão seu papel na trama.

A direção de arte é outro trunfo de Amantes. Basta olhar o antiquado apartamento onde Leonard vive: observe nos papéis de parede que compõem a sala, nos móveis rústicos, nos porta-retratos, no aquário em seu quarto, na estante cheia de livros. Afinal, estamos diante de uma família conservadora, educada, que tem à frente uma mãe superprotetora e econômica nas palavras – daquelas em que só um olhar basta.

E que belo trabalho faz a atriz Isabella Rossellini. Quando a vemos em cena ao lado de Joaquin Phoenix, somos tomados por sentimentos diversos – pena, raiva, compaixão – e percebemos o quão poderoso é esse filme.  Vale lembrar que Gwyneth Paltrow entrega a melhor interpretação de sua carreira. Culpa do Sr. James Gray, talentoso diretor que abusa do poder das sutilezas (as sequências no terraço dizem muito mais do que aparentam, bem como a cena do restaurante, em que sofremos junto com Leonard ao vermos uma indelicada mão masculina acariciar o rosto de Michelle).

Tudo isso, aliado à escura fotografia (tão nublada quanto o inverno nova-iorquino) faz de Amantes um filme muito verdadeiro e natural. Uma pequena obra-prima que merece ser vista, revista e muito apreciada.

Nota: 9,5





Resenha: Up – Altas Aventuras

7 09 2009

UP - Altas Aventuras_PosterDizem que para uma música ser boa, ela precisa lhe causar arrepios e fazer brotar lágrimas em seus olhos. Se a mesma “teoria” valer para filme, então Up é um absurdo de bom!

O que pode ser um problema, já que a cada novo filme da Pixar, fica mais difícil estabelecer uma ordem de favoritos do estúdio. Afinal, até hoje não sei dizer se prefiro Procurando Nemo a Os Incríveis; ou se Monstros S.A é melhor que Ratatouille. Simplesmente não consigo – e sofro por isso.

E, acredite, Up tem qualidades suficientes que podem colocá-lo no meu “TOP 5 Pixar”. Algo que percebi logo na sequência inicial do filme, que é uma das coisas mais lindas que o cinema já produziu (aquele que não se emocionar, pode muito bem enfiar uma faca no coração que provavelmente não vai sentir nada). Mas isso são só alguns minutos de uma produção absolutamente maravilhosa, em todos os sentidos.

O primeiro filme do estúdio em 3D não poderia ser outro: como o título entrega, a maior parte de Up acontece nas alturas, o que é um prato cheio para o ganho de profundidade oferecido por aqueles óculos mágicos. Seu visual é arrebatador (luzes, texturas, movimentos: tudo é fantástico) e, diferentemente de A Era do Gelo 3, nada pula da tela gratuitamente. A tecnologia está lá para ajudar a contar uma história.

E que história! Esqueça o excesso de acasos e o fraco vilão: Up é sobre amor eterno, sobre vida e morte, sobre amizade e esperança (por mais piegas que isto soe). E, para mim, o mais fascinante no trabalho da Pixar é a capacidade de seus animadores e roteiristas em desenvolver personagens complexos e interessantes: o boneco que acredita ser patrulheiro espacial (Toy Story); o robô que não fala e mesmo assim expressa sentimentos profundos de amor (Wall-E); o rato com paladar aguçado que sonha em ser chefe de cozinha em Paris (Ratatouille); e agora um senhor rabugento – mas de coração mole – que deseja viajar até a América do Sul sem sair de casa.

Como é gostoso e inspirador ver Carl Fredricksen (velhinho de 78 anos) e Russell (garoto escoteiro) em tela. Assim como Buzz e Woody, aqui, um complementa o outro: Russell é o filho que Carl nunca teve e a relação de amizade entre os dois é belíssima e muito genuína – e é também dela de onde nascem as piadas mais inteligentes de um filme muito engraçado.

Mas, como disse lá em cima, o único ponto “fraco” de Up (se é que existe um) é seu vilão, o qual achei muito desinteressante. No entanto, se pensarmos bem, ele está ali apenas como justificativa para as excelentes cenas de ação. Pois, na realidade, o verdadeiro vilão da história acada sendo a inevitável passagem do tempo e suas consequências.

E, assim como Carl, eu e você também vamos ficar velhos. Só espero que, até chegarmos lá, a Pixar continue nos presenteando, ano após ano, com filmes tão emocionantes como Up – Altas Aventuras.

Nota: 9,5

Enquanto isso, no meu quarto…

Buzz e Woody_Coleção