Resenha: Milk – A Voz da Igualdade

MilkSe existe um diretor que me leva ao cinema, mesmo sem eu saber do que se trata o filme, é Gus Van Sant. Ao lado de PT Anderson, David Fincher, Michel Gondry, Spike Jonze e Wes Anderson, o cara é um dos meus diretores favoritos. 

Lembro-me claramente, por exemplo, de quando assisti à obra-prima Elefante. Foi em meados de 2005, no DVD, em casa, linda tarde, sol entrando pela janela e fazendo reflexo na televisão. Fiquei anestesiado minutos após o final do filme. Não sabia muito bem o que tinha acabado de ver. Precisava de um tempo para pensar. 

Depois veio Últimos Dias. Um filme pesado, lento, arrastado e desinteressante (como devem ter sido os últimos dias de Kurt Kobain). A técnica e o domínio visual de Van Sant sempre presentes, firmes e fortes. Em 2007, Paranoid Park encerrou brilhantemente o que seria uma trilogia sobre adolescentes, solidão, busca por um sentido de existir, aceitar e ser aceito. Bela narrativa, belos enquadramentos, ótima trilha sonora. 

E então, chegamos a Milk – A Voz da Igualdade. Relembrando os tempos de Gênio Indomável, Van Sant deixa de lado os jovens problemáticos e revisita – com moderação – o convencional. Afinal, não só estamos falando de uma história real, como também de um filme sobre política. Sim, por mais camadas que a produção tenha, o seu cerne está na vida política de Harvey Milk, primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público nos EUA e que foi assassinado em 1978 (é, ele morre no final e todo mundo sabe disso). 

Com um ator talentoso como Sean Penn e um diretor que possui total domínio sobre sua técnica, o filme é capaz de surpreender mesmo quando se sabe qual será seu final (assim como em Elefante). 

Em cena, Sean Penn desaparece. O que vemos ali é Harvey Milk em carne e osso, com suas carências, ambições e inseguranças. A interpretação de Penn é formidável, superando, inclusive, outros trabalhos inspirados do ator (como o deficiente mental de Uma Lição de Amor). Ainda sobre o elenco, todos os coadjuvantes estão excelentes, com destaque para James Franco e Emile Hirsch. 

Em um olhar mais cuidadoso sobre a direção, posso dizer que esse é o trabalho mais completo de Van Sant. Ele dosa com muita sabedoria a ousadia visual que lhe é inerente, com a proposta de um filme mais convencional, pensando no grande público (afinal, a ideia é que a mensagem de Harvey Milk ecoe para um número sem fim de pessoas). O uso de cenas reais, documentadas na época e nas locações retratadas no filme, é um dos trunfos da produção, que, apesar dos elogios, tem seus problemas, como quando o roteiro se perde em diálogos desnecessários e Van Sant entrega um final meloso demais. 

Milk – A Voz da Igualdade é, em essência, igual a seu protagonista: ousado em espírito, recatado quando necessário, político, com valores atemporais e com uma mensagem importante a passar.

Nota: 8,5

Anúncios

2 comentários

  1. Antes de deixar meu próprio comentário, deixo o de uma colega de trabalho. Encaminhei o link do sua resenha de milk para uma super cinéfia, (que vai ao cinema 3-4 vezes por semana) eis o que ela disse:

    A crítica é bem interessante, de quem se interessa por cinema e conhece os diretores. Eu não sou assim tão profunda, só gosto de cinema. Mas acho bom ler esses comentários mais aprofundados, para ganhar conhecimento.

    Obrigada. Envie esse tipo de notícia sempre que tiver, ok? Vou gostar muito.

    1. Uau! Que bacana.
      Na realidade, a intenção é ser nada profundo.
      Mas quando se trata de diretores que admiro, a voz de fã fala mais alto e acabo escrevendo o que vem na cabeça. rs

      Muito obrigado, mesmo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s