Resenha: Apenas o Fim

Apenas o FimUm pequeno filme, mas com uma grande e bem executada ideia. Este é Apenas o Fim, produção que traduz em imagem e som a famosa expressão de Glauber Rocha de que, para se fazer um bom filme basta “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Enquanto todos na faculdade de cinema estavam presos às facilidades e conveniências dos curtas-metragem, o jovem Matheus Souza, no alto de seus 20 anos, foi ambicioso: escreveu, em cerca de 20 dias, o roteiro daquele que seria seu primeiro longa-metragem. Em esquema de guerrilha e baixíssimo orçamento (algo em torno de R$ 8 mil), Apenas o Fim foi gravado em curtos 15 dias.

E o que poderia ser um amador trabalho universitário tornou-se, graças ao afiado texto de Matheus, uma obra no mínimo extraordinária. Usando claramente a estrutura dos filmes de Richard Linklater (Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol), o roteiro de Matheus acompanha um jovem casal que está prestes a se separar. Ela está indo embora para outro lugar, enquanto ele continuará no RJ para terminar sua faculdade de cinema. Antes disso, eles têm apenas uma hora para conversar, relembrar momentos da relação e, enfim, colocar nela um ponto final.

Vivido por Erika Mader e pelo excelente Gregório Duvivie, o casal, ao mesmo tempo em que aparenta ser tão próximo, está tão distante. Nos inteligentes diálogos construídos pelo roteirista/diretor, a última hora de conversa do casal parece também um primeiro encontro. A cada troca de palavras, eles buscam conhecer um pouco mais sobre o outro e sobre eles mesmos: fruta favorita, videogame favorito e até Pokémon favorito.

Sim, Apenas o Fim talvez seja menos uma comédia romântica e mais um culto ao “nerdismo”, já que o texto de Matheus é uma salada de referências da cultura pop, com citações a Backstreet Boys, The Strokes, Transformers, Mario Bros., Godard e, claro, Star Wars.

No entanto, em meio às sacadas do roteiro há algo que, definitivamente não é um problema, mas poderia ser menos frequente: o uso da metalinguagem. É difícil saber o que é realidade e o que é ficção na obra. O personagem de Gregório é o próprio Matheus (estudante de cinema, nerd), o que, repito, não é um problema. Contudo, as diversas citações dos personagens quanto ao gênero (“falar que falar sobre amor é que é muito clichê”) e quanto à própria estrutura do filme (“teatro filmado”; “estão gravando um filme aqui hoje”), demonstram a insegurança de um cineasta em início de carreira, quanto aos vícios que ainda não cometeu. Um medo absolutamente desnecessário.

Outros quesitos técnicos da produção também merecem destaque, como a presença de planos-sequência bem realizados, enquadramentos interessantes (plongée, na cena em que conversam na escada) e boa mise em scène, através de um fluído tour feito pela universidade.

Por fim, quando, durante um debate após a sessão, questionei o diretor sobre a possibilidade de uma continuação dentro dos próximos 5 ou 10 anos (assim como fez Linklater), a resposta foi imediata: “Mas sem dúvidas. Eu não vejo a hora desse tempo passar.”

Nós também, Matheus. Nós também.

Nota: 8,5

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10 comentários

  1. Você e suas pré-estréias chiques né?? Foi fechada também, ou eu é que dormi no ponto?? Onde fico sabendo essas coisas?? rs

    A resenha ficou ótima!! Só me deixou com mais e mais vontade de ver!!

    PS: a testeira do T4 ficou bem legal também!!

    1. Pois é, minha gente. VEJAM esse filme. É realmente muito legal.

      Quem bom que gostaram da resenha. Valeu!

      Leo, você marcou bobeira. Rolou uma pré-estreia quinta-feira, de graça no Espaço Unibando, seguida de debate com diretor e elenco.
      Desculpe por não avisar. Mas acabei sabendo de última hora também. Sorry.

      Mas dia 12 o filme entra em cartaz. Não deixem de vê-lo.

      Abraços!

  2. Meu Deus, pensei na mesma citação de Glauber Rocha quando assisti ao filme!

    Tem toda razão, é uma obra extraordinária, mas discordo que tenha sido tão ruim assim o uso da metalinguagem. Filmes tão ou mais qualificados como Adaptação e Quero ser John Malkovich já confundiram realidade com ficção de maneira exemplar, transparecendo no fundo grande maturidade, pois não é fácil manter uma narrativa coerente com tantos vai-e-véns entre trama e vida real.
    É fato, o filme dentro do filme em Apenas o Fim é utilizado de maneira fraca e um tanto tola, mas ainda acho válida.

    1. Oi Leka!

      Talvez não tenha me feito claro. Acho que o uso da metalinguagem enriquece e deixa qualquer obra mais interessante. No entanto, a impressão que fiquei ao final da sessão, é que tal recurso não foi usado apenas como “tempero” criativo, mas como discurso para encobrir as possíveis falhas do filme.

      O diretor mesmo chegou a dizer, no debate que assisti, que estava com medo de que as pessoas falassem que seu filme tinha muito a linguagem do teatro e, por isso, decidiu colocar uma fala que questionava isso. Enfim, como eu escrevi na resenha, ele estava assumindo um crime que não cometeu. Não precisava, né?

      Mas obrigado pelo rico comentário. Aproveitei seu link e li sua resenha. Muito boa. Parabéns!

      Volte e comente sempre.
      ;-)

  3. Explica para a amadora aqui o que é plongée, por favor? É quando a câmera fica localizada no pé da escada e a imagem pega a escada toda, com eles sentados no meio? De resto, ótima crítica. Concordo e assino em baixo em tudo.

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