Resenha: (500) Dias Com Ela

Se você tem, vejamos, mais que 20 anos, já deve ter se apaixonado ao menos uma vez nessa vida, certo? Uma paixão que te fez pensar o dia inteiro na pessoa, sempre com frio na barriga e arrepio na espinha. E, se já se apaixonou, é bem provável que também já sofreu por causa disso: dor no coração, saudade, arrependimento, vontade de não existir.

A paixão é algo irresistível, mas também assustador. Eu sei disso. Você sabe disso. E o Tom (Joseph Gordon-Levitt) sabe muito bem disso. Mesmo assim, graças à precoce exposição a músicas pop, ele cresceu acreditando que jamais seria feliz a menos que encontrasse a pessoa certa.

É aí que entra Summer Finn (Zooey Deschanel), a garota com a qual ele passará 500 dias inesquecíveis (uns felizes, outros nem tanto).

Esta premissa é o ponto de partida deste filme delicioso e apaixonante. Graças ao talento do diretor Marc Webb, (500) Dias Com Ela (‘500 Days of Summer’, 2009) consegue ser um dos melhores do ano e uma das grandes comédias românticas do cinema.

Esqueça essas coisas sem alma feitas por Jennifer Aniston, Ashton Kutcher e cia. (500) Dias Com Ela pega todos os clichês do gênero e os recria com curiosa originalidade, abusando de ferramentas metalinguísticas e referências à nossa cultura e àquilo que consumimos sem culpa (séries de tevê, filmes, músicas). É divertidíssima, por exemplo, a cena em que Tom se dá conta de que Summer é mesmo diferente, quando, no elevador, ela revela que ama a banda The Smiths.

E, se em Juno, o roteiro era extraordinário por colocar palavras ácidas e inteligentes na boca de uma adolescente, espere até ouvir os diálogos espertinhos de (500) Dias Com Ela. No filme de Marc Webb, os personagens falam coisas que eles deveriam estar mesmo falando, mas de forma muito mais divertida e descolada (odeio essa palavra).

Do início ao fim, Webb busca romper com o comum usando recursos outrora recorrentes (tela dividida, narração, flashback), mas que aqui, de tão bem realizados, fazem todo o sentido para compreendermos as personagens em tela. A sequência em que Tom vai à festa na casa de Summer e vemos, de um lado sua Expectativa e do outro a Realidade, enquanto a música de Regina Spektor diz “he never ever saw it coming at all”, é de uma fodelância absurda (tradução: genial). Essa passagem, inclusive, me deixou emocionadíssimo, tamanha sua simplicidade.

E o diretor brinca o tempo todo com a metalinguagem, às vezes de forma mais clara, como a sequência do musical ou quando Tom se vê refletido na tela do cinema, mas principalmente disfarçada de conteúdo: (500) Dias Com Ela é uma história de amor em que seu personagem principal, seu herói, culpa todas as histórias de amor criadas, seja no cinema, seja na música, por fazer as pessoas se frustrarem ao desejar algo que, aparentemente, não existe na vida real: a famigerada alma gêmea. É curiosíssimo como o filme tenta subverter (de mentirinha, claro) tal convenção, mesmo que por fim acabe se rendendo a ela.

Apesar disso tudo, (500) Dias Com Ela é mesmo um filme de personagens. Assim como o competente Apenas o Fim, é na dinâmica entre os protagonistas que a produção brilha. Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel finalmente encontraram os papéis de suas vidas.

Carismático, Gordon-Levitt pode até exagerar um pouquinho nas expressões (quando ele está depressivo, principalmente), mas seu olhar de apaixonado é tão sincero e genuíno, que basta. Já Zooey Deschanel… puta merda, juro que em muitos momentos desisti de ler a legenda só pra ficar olhando em seus olhos. Sabendo que a atriz não é lá muito talentosa (vide Fim dos Tempos), Marc Webb soube extrair o melhor da moça e a deixou ainda mais encantadora. Repare, por exemplo, como a personagem veste basicamente azul; isso a torna mais serena e fascinante.

Os fatores que me incomodam no filme são o excesso de vai e vens e os amigos do Tom, que servem como um desnecessário alívio cômico. Especialmente a garotinha a quem ele pede conselhos; qual o sentido da personagem ser uma criança? Para mostrar que ele é mesmo um cara inseguro e que seus amigos não entendem do amor e, por isso, não prestam para dar conselhos? A intenção é até que boa, mas para mim não rolou.

Mas isso de nada importa. Pois com uma trilha sensacional, roteiro afiado, atores em sintonia e um diretor com total domínio sobre sua obra, (500) Dias Com Ela é um filmaço.

Veja, reveja, ame, odeie, sinta.

Nota: 9,0

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16 comentários

  1. “HEY! Pare o mundo AGORA que eu quero descer!”

    Como assim?
    Já tá no cinema?
    Preciso ver isso urgente…
    Ai… Fiquei arrepiado com a leitura…
    TUDO!

  2. Ta afiado, heim??? Faz tempo que não leio seus textos, cada vez melhor!!!

    Prestou atenção até na cor do figurino da Zooey Deschanel ??? Meu Deus, nem lembrava disso! Sim, o filme é muito bom! Me senti na mesma vibe de Juno, por isso vou TER que comprar o dvd! hehehehe Maaaaaaaasss, por algum motivo inconsciente, eu esperava outro final, sabe?? Fiquei meio decepcionada…. You know what I mean! Não vou falar mais aqui pra não estragar a surpresa de quem ainda não viu! rs E o casamento na minha opnião foi totalmente incoerente!!! Enfim…. Dou 9,0 também! bjos

    1. Valeu Ana!

      E como assim vc não lembrava do figurino da Zooey? É sua obrigação! Ou já esqueceu que você vai ser a figurinista do meu filme? rs

      Comprar o DVD? Ana, DVD é tão 2008. Blu-Ray é o nome. B-l-u-R-a-y. hehehe

      Mas você tem razão, todos esperam um final diferente. Mas por isso o filme é legal. Pois muitas vezes essa é a realidade. E é natural se decepcionar. Quando ao casamento, concordo. Mas precisávamos de um ponto de virada e eu acho que uma doença seria bad demais.. rs

      Amei seu comentário. Ótima contribuição. É assim que eu gosto! Comente mais. Sempre.
      Beijão!

  3. Acabei de voltar do cinema e PQP: FILMÃO!!!
    Não resisti e vim correndo ler a sua resenha. Parabéns, tá ótima como sempre!!

    PS: Eu já não tinha gostado tanto de Juno.
    Depois de assistir esse, não chega nem aos pés!!

    Abraço!

    1. Que bom que curtiu o filme, Leo. Achei bem foda.

      Obrigado pelo elogio. Estou louco pra ler sua resenha também. Escreve logo! rs

      Ah, eu gosto de “Juno”. Assisti apenas uma vez, no cinema. Preciso ver novamente, mas gosto do filme. É bunitinho. rs
      Mas concordo que não chega aos pés de “(500) Dias Com Ela”.

      Abraço!

  4. Certa vez perguntaram a Rachel de Queiroz, numa entrevista na TV, se ler ajudava a escrever melhor, e ela respondeu “o que de fato ajuda a escrever melhor é escrever”. Você tá provando isso! Seu texto, nesta resenha, ficou excelente! Parabéns!

  5. adorei a resenha, vou usar pra um trabalho escolar. – mesmo rs
    vi o filme a poucas horas, súper sem cultura ¬¬ to bem emocionada, rs
    eu gostei do fim sim, não tava mesmo indo com a cara do papel da zoey, hoho
    acho que disse tudo, é assim mesmo. destino, não era pra ser o caso dos dois, e tem que ser livre até deixar que o tempo mostre se a pessoa nasceu pra se casar… tanta gente casa e se separa… porque qual a graça em viver aquela rotina irritante pro resto das nossas vidas?
    desabafei. rsrsrsrs
    parabéns

  6. Muito bom o filme! Digo mais: muito bom mesmo!
    Mas acho que ele não foge, de forma alguma, dos filmes “blockbuster”. que fazem parte da industria cinematográfica.
    A a trilha sonora, a fotografia do filme são excelentes, mas o fim é super premeditado. É justamente esse “excesso de vai e vem” que faz com que a gnt conclua que quando completar 500 dias ele não vai estar mais com ela e, que no caso, conheceria outra pessoa. Não curto filmes que saco o fim, quando ainda estou no meio. Por isso dou 8,5 =)

    Obs. Curti o que escreveu!

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