Bastardos Inglórios

Resenha: Bastardos Inglórios

Inglorious Basterds

Não são necessários nem 10 minutos de Bastardos Inglórios para saber que estamos diante de mais uma obra-prima de um cineasta que só faz obras-primas (pode falar o que quiser, mas À Prova de Morte e Jackie Brown têm momentos geniais).

A sequência inicial de Bastardos é uma das coisas mais poderosas já vistas no cinema. Através de um diálogo hipnotizante, onde o silêncio é carregado de tensão, Tarantino desenvolve com maestria (e elegância, ao passear com sua câmera ao redor dos personagens) dois fatores determinantes para trama: 1- a personalidade sarcástica (e até dócil) de seu vilão; e 2- o clima e ambientação necessários para entendermos um pouco sua visão da França ocupada pelos nazistas.

Aqui, ao invés de divagar a respeito de Like a Virgin, massagem nos pés ou sobre a personalidade fascinante do Super-Homem, ele faz uma analogia entre ratos e esquilos para explicar o asco que os nazistas sentem pelos judeus. Foda. Não à toa que um roteiro com este tipo de monólogo tenha levado quase uma década para ficar pronto. Tarantino é um artesão, um escultor de palavras. São inúmeros os diálogos memoráveis presentes no filme, que, em linhas muito gerais, acompanha um grupo de oito soldados judeus americanos à caça de nazistas – o grupo se autodenomina de “bastardos”.

Bastardos Inglórios_Sequencia Inicial

Se a premissa já é badass o suficiente, espere até ver esses caras em ação: um pouco de sangue aqui, alguns cortes de cabelo ali, um dedo na ferida e muitos tiros. Sim, o exagero proposital característico do diretor está lá. Cinéfilo como nenhum outro, Tarantino gosta de abusar dos efeitos causados pelas imagens. Já que estamos na ficção, tudo vale. E a plateia reage com desconforto. Missão cumprida.

Por falar em exagero, considero Bastardos Inglórios o Kill Bill da segunda guerra. Com trama também fragmentada em capítulos, letreiros descolados (como o que apresenta o soldado Hugo Stiglitz) e movimentos de câmera quase idênticos aos do filme da noiva (citarei uma sequência específica em seguida), Tarantino faz aqui seu mais interessante exercício de metalinguagem.

E não falo apenas de Orgulho da Nação, o filme dentro do filme e homenagem ao cinema da propaganda nazista. Famoso por costurar suas tramas com elementos da cultura pop, em Bastardos Inglórios, além de fazer isso (repare que a fonte dos créditos remete aos westerns spaghetti de Sergio Leone e saiba que o nome de ‘King Kong’ grudado na testa de um militar nazista está ali não por acaso) ele também faz referência a seus filmes anteriores, principalmente Kill Bill.

Não me é estranho, por exemplo, que o nome do inteligentíssimo coronel Hans Landa soe familiar ao de Hattori Hanzo, ferreiro criador da poderosa espada de Beatrix Kiddo, de Kill Bill (Hans – Hanzo). Ou ainda a obrigatória ponta de Samuel L. Jackson como narrador da sequência sobre o poder de combustão dos rolos de filme. Para não citar o incrível tiroteio do bar, que herdou o melhor estilo Cães de Aluguel. É Tarantino citando Tarantino; e isso é brilhante.

Inglorious Basterds_Hans Landa

Hans Landa, voltemos a ele. Que belo trabalho do ator austríaco Christoph Waltz (que foi premiado este ano em Cannes). Sem dúvidas, um dos vilões mais fascinantes que o cinema já produziu. Um coronel nazista que desconstrói com delicadeza o arquétipo do militar durão, violento. Falando quatro línguas fluentemente (a cena em que testa seu italiano é hilária), Hans tortura e causa medo, sim. Mas faz isso com a elegância de um lord inglês: pobre Shosanna Dreyfus (a bela fracesa Mélanie Laurent) que é obrigada a degustar um refinado doce oferecido pelo assassino de sua família, em uma sequência fabulosa (os planos-detalhe na sobremesa funcionam como uma bem-vinda fuga, como se, no mergulho ao prato, o diretor nos aliviasse do pavor e da tensão que a personagem sofre em cena).

Os belos enquadramentos são uma premissa nos filmes de Tarantino. Mais uma vez, como fã de cinema, ele compõe seus quadros com admirável precisão. Um exemplo disso acontece quando Shosanna se prepara para executar seu plano de vingança: ao usar vestido vermelho, unhas vermelhas e batom vermelho, ela nos antecipa um possível banho de sangue (sem abrir mão do véu negro, signo máximo do luto). Observando a rua pela janela, seu reflexo se mistura com o avermelhado das bandeiras nazistas estendidas do lado de fora; que bela mise-en-scène! Ao deixar o quarto, Tarantino mais uma vez imita Kill Bill ao acompanhar a personagem pelo corredor até chegar às escadas, tudo com ponto de vista de cima para baixo, num plongé que lembra uma das cenas da sequência no templo de O-Ren Ishii (Lucy Liu).

Era o início de um final épico. Uma conclusão violenta, perturbadora (senti uma aflição tremenda ao ver o cinema arder em chamas, imaginando que aquilo poderia acontecer na sala em que estava), mas não menos genial. Um marco do cinema e da carreira de Quentin Tarantino, o cineasta mais mother fuckin´ cool ever!

Nota: 10

Diane Kruger_Quentin Tarantino

Estreias – 9 de outubro/09

A semana foi corrida, os posts foram poucos, mas uma estreia de hoje compensa tudo: Bastardos Inglórios, novo filme de Quentin ‘Mother Fucker’ Tarantino.

Se depois de ver o filme, você quiser voltar ao cinema, fique à vontade pra ver a animação produzida por Tim Burton, (9 – A Salvação) ou o documentário sobre o vocalista do Paralamas do Sucesso (Herbert de Perto) ou uma animaçãozinha tosca (O Golfinho – A História de um Sonhador) ou um filme brasileiro com uma produção muito da safada (Flordelis – Basta Uma Palavra Para Mudar).

Clique no pôster do filme para ver seu trailer.

Bastardos_Inglórios_Poster9_A Salvação_PosterHebert de Perto_PosterO Golfinho_PosterFlordelis_Poster

Tarantino e seus filmes favoritos

Neste vídeo, o diretor lista seus filmes prediletos a partir de 1992, data em que estreou como cineasta.

Alguns eu não vi, principalmente os japoneses, mas concordo muito com citações como Clube da Luta, O HospedeiroBoogie Nights, Encontros e Desencontros, Dogville, Matrix, Todo Mundo Quase Morte e outros.

Bastardos Inglórios, seu novo filme, estreia sexta-feira nos EUA e chega ao Brasil em 23 de outubro, passando antes pelo Festival do RJ.

[ATUALIZADO]

Neste vídeo, Tarantino faz uma “resenha” sobre o que talvez seja meu segundo filme favorito: Sangue Negro (There Will Be Blood) de P.T. Anderson.

Fodástico!